Katherine Boo – Em busca de um final feliz

resenha do livro Em busca de um final feliz

Em busca de um final feliz
Katherine Boo
Editora Novo Conceito, 2013
288 páginas

Saraiva

Em Busca de um Final Feliz, de Katherine Boo, é um livro brilhantemente escrito. Através de uma forte narrativa, descobrimos como é o dia a dia dos moradores de Annawadi, uma favela à sombra do elegante Aeroporto Internacional de Mumbai, na Índia.

A história de seus habitantes nos faz rir e chorar, porque “o que é celebrado neste livro não é o que poderíamos chamar toscamente de ‘o encanto da lama’, mas a riqueza das pessoas que — para o bem e para o mal — compõem um tronco social que está cada vez mais presente no nosso mundo moderno”. (Zeca Camargo, em prefácio a esta edição).

O leitor vai se apaixonar por Sunil Sharma, o menino catador de lixo que quer ficar rico, por Manju, a moça mais bonita da favela, que quer ser professora, e até pela tresloucada Fátima, a Perna Só, que só quer um pouco de atenção.

Em busca de um final feliz é o primeiro livro da jornalista Katherine Boo, que passou 20 anos de sua vida fazendo reportagens em favelas e comunidades carentes, buscando entender a pobreza e a desigualdade das oportunidades. Este livro é um relato dos quase quatro anos que a autora passou na favela Annawadi, localizada ao lado do novo e luxuoso aeroporto internacional de Mumbai. O livro reúne relatos e histórias de muitos personagens que, em meio à miséria, passam por dificuldades devido à falta de comida, à sujeira, ao contato com doenças, animais, a violência e todos os problemas que pode existir em uma sociedade regrada apenas para sobreviver.

Nos primeiros capítulos, conhecemos o muçulmano Abdul Hussain, que, segundo a mãe, poderia ter 17 ou mesmo 27 anos (na busca da constante sobrevivência e comida, ninguém se lembra exatamente de guardar datas). Abdul e seu trabalho de separar e vender o lixo era a principal (e, por muito tempo, única) fonte de renda para seus pais e muitos irmãos. Porém, nem todos os moradores tiveram a mesma sorte nos negócios que a família Hussain, e por isso, eles são detestados na comunidade.

Algumas vezes, os insultos, discussões e pequenas brigas domésticas ameaçaram a estrutura da família, principalmente as ocasionadas com a tão conhecida Fátima, ou “Perna Só”, outro personagem real que ganha um espaço considerável no livro. Além dela, conhecemos outras pessoas da favela que, resumidamente, passam por problemas e dificuldades diários, tentando enxergar uma possibilidade em meio à pobreza, ao lixo, à miséria, à corrupção cada vez mais evidente, e ao descaso total das autoridades pelo povo das favelas, vistos como um pedaço da Índia em atraso. Este livro nos mostra a real situação de muitas famílias que buscam, diariamente, por comida, por condições humanas de vida. Afinal, dormir no chão, ao relento ou sobre seu saco de lixo para que não seja roubado durante a noite não pode ser considerada uma vida digna.

Durante algumas partes, o livro torna-se maçante por abordar assuntos políticos, mas na maioria das vezes a leitura flui muito bem e ficamos estarrecidos com a “roubalheira” que existe por baixo dos panos: médicos exigindo dinheiro para medicamentos que deveriam ser gratuitos; policiais cobrando valores exorbitantes para inocentar uma pessoa que eles sabem não ter culpa; oficiais e políticos embolsando mais e mais dinheiro através de falsas organizações.

Essa é uma leitura que o fará abrir os olhos para uma Índia que não é somente como vista na televisão, cheia de maravilhas e lugares exóticos. Como todos os lugares, o país também tem a sua cota de pobreza, e é bom conhecermos essas formas de vida, para abrir nossos horizontes sobre o mundo em que vivemos e sobre como pessoas realmente miseráveis conseguem enxergar beleza em pequenas coisas – coisa que muito de nós precisa aprender a fazer. O relato de Katherine é vívido, completo e merece ser lido. Se você gosta de histórias reais, não para distrair, mas para te fazer crescer como ser humano e enxergar que a sua vida não é tão ruim como você imagina, precisa ler “Em busca de um final feliz”.

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11 comentários

  1. Responder

    Ana

    10/12/2014

    Gostei muito da sua resenha desse livro Gabi!
    Não gosto muito de ler historias reais porque sofro muito junto ! rs
    Mas me interessei bastante por esse livro e vou correr procurar!

    • Responder

      Gabi Orlandin

      10/12/2014

      Ana, acho que esse não é daqueles livros que a gente sofre tanto, sabe? É uma história real e é triste, mas não é “sofrível”, hehe 🙂
      Beijos.

  2. Responder

    Gabriela Oliveira

    10/12/2014

    Não sou fã desse gênero, mas confesso que sua resenha despertou a minha curiosidade. Parece ser uma narrativa bem forte.

    • Responder

      Gabi Orlandin

      11/12/2014

      É realista, Gabi. A gente abre os olhos pra o que está além do que a mídia nos mostra. E percebe que nem tudo é como eles dizem.
      Obrigada pelo comentário.
      Beijos.

  3. Responder

    Anne

    10/12/2014

    Conheço duas pessoas que viajaram pra Índia e relataram que não tem quase nada a ver com aquelas cenas lindas e cheias de cores vivas que a gente vê na mídia. É um país extremamente pobre e atrasado. As partes bonitas são os monumentos antigos.
    Não conhecia esse livro, mas parece uma história bem interessante, pra refletir mesmo!
    Beijo

    • Responder

      Gabi Orlandin

      11/12/2014

      Eu gosto desse tipo de livro que mostra a realidade dos lugares, sabe? É fácil sempre mostrar as coisas bonitas, desafiador mesmo é mostrar a realidade como ela é.
      Obrigada pelo comentário e pela visita!
      Beijos.

  4. Responder

    Carla Vieira

    10/12/2014

    Gabi acho que com o pouco que me conhece, deve ter notado o meu interesse por questões politicas e polêmicas. Com certeza lerei esse livro, eu já li Mulheres de Cabul que retrata a realidade de muitas mulheres no Afeganistão durante o regime do Taleban, eu te indico esse livro, é muito bom! Enfim, gostei muito da proposta do livro e da sua resenha, claro, passou toda a profundidade do assunto que é tratado.

    Beijos <3

    • Responder

      Gabi Orlandin

      11/12/2014

      Carla, me interesso pelo livro Mulheres de Cabul há anos, desde que li O Caçador de Pipas, mas depois fui deixando de lado e acabei desistindo. Adorei saber que você indica a leitura, pois vou readicioná-lo na lista de leitura. Acho que deve ter pra empréstimo na biblioteca da empresa, vou ver amanhã mesmo. Obrigada! <3
      Beijo.

      • Responder

        Gabi Orlandin

        11/12/2014

        Carla, acabei de pegar emprestado o Mulheres de Cabul aqui na empresa. Vou ler em breve e te falo o que achei. Obrigada!

  5. Responder

    Bruna Lombardi

    11/12/2014

    Eu nunca havia ouvido falar deste livro ….
    Gostei de sua resenha (novidade,eu sempre gosto [heart] ),ela ficou ótima!
    Mas mesmo assim eu não leria este livro,não sei bem o por que,acho que e a historia,não me chamou muito a atenção …
    Abraços

    • Responder

      Gabi Orlandin

      12/12/2014

      Oi, Bruna!
      Esses livros são muito específicos, eu acho. A pessoa tem que gostar desse gênero pra ler. Tudo bem se não for seu estilo 🙂
      Beijos.

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