Maria da Graça Rodrigues – Paraíso Selvagem

resenha do livro Paraíso Selvagem

Paraíso Selvagem
Maria da Graça Rodrigues
Editora Movimento, 2014
216 páginas

Cultura

A autora entrelaça dialeticamente a vida dos indivíduos à vida social, e os conflitos em que aqueles mergulham não são resultantes apenas de suas subjetividades cindidas, mas das circunstâncias objetivas da realidade brasileira, desde a migração dos gaúchos rumo ao Centro-Oeste à presença do nascimento de uma consciência ecológica no país, passando por ONGs forjadas e pelo extermínio de índios, sem contar outros motivos candentes de nossa modernidade inconclusa, como o aborto e o novo papel da mulher no âmbito privado e no contexto público.

Quando a escritora gaúcha Maria da Graça Rodrigues entrou em contato comigo para que eu lesse e fizesse uma resenha de um de seus livros aqui no blog, fiquei ao mesmo tempo em dúvida, por estar com pouco tempo para me dedicar às minhas leituras, e feliz por se tratar de uma autora da minha terra, o Rio Grande do Sul. Porém, balanceando vários fatores, acabei aceitando a parceria. Afinal de contas, além de apoiar a literatura nacional, estaria também divulgando uma autora do meu estado. E eu só tive surpresas com Paraíso Selvagem! Eu não esperava nada do que encontrei no livro, e me surpreendi positivamente. Agora, quero contar um pouquinho dele pra vocês.

Lançado em agosto de 2014, “Paraíso Selvagem” conta a história de migração de gaúchos para o Mato Grosso – mais de 40 mil habitantes matogrossenses têm origens no Rio Grande do Sul (fonte). Quando Mariana se forma pelo curso de veterinária, ela busca pelo estágio perfeito no Mato Grosso do Sul. O anúncio pedia que duas pessoas selecionadas fossem à fazenda Paraíso, no Pantanal, para catalogar a fauna e a flora da região e construir um catálogo turístico do local. A ideia do proprietário, Santiago Xavier, era trazer pessoas de todo o mundo aos seus alojamentos. Porém, tudo parecia perfeito demais – inclusive o próprio dono das terras. Aos poucos, a moça vai descobrindo prazeres desconhecidos, ao mesmo tempo em que tenta não dar ouvidos às coisas que as pessoas falam e descobre outras que a farão mudar de ideia sobre todos os seus planos. O que era para ser apenas um estágio temporário vai deixar marcas para mais tempo, não só para ela, mas para todas as pessoas ao seu redor – personagens encantadores que, em seu jeito simples de interior, vão encantar o leitor!

O livro é dividido em três grandes partes: na primeira, acompanhamos o encontro de Mariana e Santiago em meio às terras do Pantanal; no segundo conhecemos a história de vida de Santiago, desde menino, sempre tão misterioso e fechado sobre si mesmo; e no terceiro, encontramos o fechamento definitivo da história. Achei que a narrativa ficou muito bem separada, e essa “quebra“, pulando para o passado do menino Santiago, foi o ingrediente certo para que o leitor não caísse na monotonia. Dentro de cada uma dessas três partes, temos capítulos menores, mas a separação não se dá com páginas, e temos a sensação de que não há capítulos que separam a história. Alguns talvez se incomodarão com isso, mas no meu caso não foi um problema, visto que engoli cada página após a outra na ansiedade de saber como tudo terminaria.

O que mais me assustou logo de início foi a escrita da autora. Não me entendam precipitadamente mal: ela é muito natural, fluida e fácil (pelo menos aos acostumados às palavras e expressões gaúchas que aparecem vez ou outra), mas é bem diferente do que costumo ler. Por exemplo, Graça intercala os diálogos com travessões com vários diálogos descritivos. Por exemplo, os leitores não acompanham todas as falas dos personagens, mas sabem o que eles dizem porque a autora nos fala em parágrafos. Eu não sei explicar muito bem, mas é mais ou menos isso. E não é que isso seja um ponto negativo, muito pelo contrário, a autora conseguiu mexer um pouco a minha cabeça com isso, fazendo com que eu tivesse acesso a uma literatura escrita de forma um tanto diferente, mas não por isso de menos qualidade.

Eu só atribuí quatro estrelas, ao invés de cinco, porque senti falta de um pouco mais de introdução a algumas cenas (verdade seja dita: elas eram tão boas que mereciam mais detalhes, e isso é algo puramente pessoal!). Mesmo assim, não sentimos tanta falta, pois, mesmo que o romance tenha sido narrado bem depressa, a autora soube dar ênfase aos momentos mais importantes da narrativa. Com o uso de passado, presente e até um pouco de um futuro (que os personagens não conhecem ainda, mas que a autora nos revela), Paraíso Selvagem entrou para a lista das leituras mais agradáveis que tive o prazer de ler esse ano.

Maria da Graça tem outros dois livros publicados: Lua Castelhana e Helena de Uruguaiana, e esse último é certamente um dos próximos livros que quero ler, pois tem uma sinopse de tirar o fôlego e cuja segunda edição está para ser lançada ainda esse ano.

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2 comentários

  1. Responder

    Amanda Melanie

    21/01/2016

    Oi, Gabi.

    Também recebi esse livro da autora e, como não leio sinopse, não sabia o que esperar. Por isso vim ler sua resenha. OBRIGADA! Vou ler agora mesmo. Parece ser muito legal, estou ansiosa para conhecê-la.

    Beijos

    • Responder

      Gabi Orlandin

      22/01/2016

      Oi, Amanda!
      Ele é diferente do que costumamos ler sempre em autores internacionais, tem um estilo diferente, sabe? Mas eu embarquei na história e adorei. Espero que você goste também.
      Beijos!

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